CAIS
Wanda
Monteiro
Turva
água a tua
Que de
teus olhos
Escorre
nua
Molha o
muro da face tua
Abre-lhe
fenda
Funda
Escura
Fina
janela para teu subterrâneo Cais
Abismo de
teus Ais.
RIO
Wanda
Monteiro
I
Mururés
adormeciam na negra pele do rio
Nas
vitórias
Lótus
solitárias sonhavam estrelas
Asas
fecharam-se e recolheram-se nos ninhos
O verde
já não era só verde
O branco
era prata e só se via nos olhos da Lua
Tudo era
furta-cor e adormecia no véu da noite
O vento
repousava
Por vezes
Ele
sussurrava segredo à restinga
Noutras
Ele suspirava
encrespando as águas da maré jusante
Silencio era a voz de tudo
Tudo era a voz do silencio
E tudo
era mistério
Dentro da
mata
Uma
cantilena pedia chuva
Mas
a nuvem prenhe de rio
Foi
passear longe...
Não havia
medo
Não havia
coragem
Havia mistério
O barro
molhado convidou-me pra deitar com ele
A
madrugada doce e líquida
Generosamente
Abrigou-me
orvalho em seu ventre
O ouro
nascente nasceu quente
Abri
minhas pálpebras
E vi
minha face no espelho...
Quando
acordei
Já era
Rio.
MÃOS
Wanda
Monteiro
Minhas mãos
procuram
No escuro
Uma
palavra perdida
Minhas
mãos movem-se
Às cegas
Nessa
busca parida da dúvida bruta
Minhas
mãos
Uma
palavra
Uma busca
E o breu
implacável do Verbo oculto
PALAVRA
Wanda
Monteiro
Eu
procuro uma Palavra
Eu não
quero uma Palavra qualquer
Não quero
uma Palavra extinta
Uma
Palavra empoeirada guardada em almoxarifado
Eu desejo
uma Palavra
Eu não
quero uma Palavra híbrida
Que seja
infecunda
Que seja
poço guardando sombra
Eu
preciso de uma Palavra
Eu não
quero uma Palavra cega
Que seja
mansa
Que seja
inerte e inapetente
Eu busco
uma Palavra
Uma
Palavra Fonte
Olho
E Luz
Uma
Palavra Cio
Ávida
E Fecunda
Eu quero
uma Palavra Nova
Uma
Palavra parida no espanto
Uma
Palavra que traga a agudeza de seu efeito
Eu quero
uma Palavra Tempo
Insone
Infinda
Uma
Palavra .
À ESPERA
DE UM POEMA
Wanda
Monteiro
Esperei
dias e noites pelo Poema
Esperei
por Ele no poente
Ele vinha e acenava
Depois
Escapava
no fio do horizonte
Para
acenar de novo no nascente
Esperei
dias e noites pelo Poema
Por vezes
Sentado
na areia
Senti seu
cheiro na veia do vento
E no
abrigo
Senti que
chegava
Escutando
a chuva caindo
Cantando
no barro da telha
Noutras
Ouvi seu
canto na concha que guardava o mar
Ouvi seu
rosnar no salto do gato no oco do ar
Esperei
dias e noites pelo Poema
Pensei
tê-lo visto sorrindo nas mãos pequenas de uma criança
Que
corria atrás de uma borboleta
Pensei
tê-lo visto chorando nas mãos de pedra de um lavrador
Que
semeava a terra trincada agonizando de sede
Esperei
dias e noites pelo Poema
Procurei
por ele em terras e várzeas
Procurei
por ele na solidão do mar
Procurei
por ele no silencio do céu
Procurei
por ele em todas as estações
Procurei
por ele nos quatro pontos cardeais
Mas
Ele
estava lá
Quieto!
No negro
espelho d’água do poço de pedra
Ele
estava lá
Guardando
tudo o que eu vi e o que eu não vi
Na
eternidade.
BICHO
ESTRANHO
Wanda
Monteiro
Sou um
Bicho estranho
Sem tempo
ou geografia
Morrendo
a cada instante por aqui e por ali
Saio de
Mim
Mundiando-me
Periférico
e circundante
Para
olhar-me Centro
Ausente
de Mim
Disperso-me
em coisas
Em bichos
Em
pessoas
Em
esquinas
Em rios
Me morro
para achar-me vivo
Quem Eu
sou?
Já me
perdi faz tempo.
TEIA
Wanda
Monteiro
Do que
padece essa gente
Que arde
febril de culpa
Que
guarda em silêncio a dúvida
E caminha
no desamparo de respostas?
Do que
vive essa gente
Que não
enxerga a poesia do peixe
Que não
compreende a inquietude da flor
E rejeita
o beijo da dor?
Com que
sonha essa gente
Que não
ouve o oco vivo da rocha
Que não
aceita a fecundidade do delírio
E não
sabe do propósito da asa?
Quem sabe
dizer dessa gente
Que se
arma em teia movente de gente
Que se
entrega à desumana trama de não se saber vivente
Nasce
Vive
Morre
Despossuída
No vago
do poço de si.
ESCOMBROS
Wanda
Monteiro
A madrugada
Já não me
é mais doce
A
madrugada
Já não me
é mais morna
A
madrugada
Já não me
afaga como brisa
A
madrugada
Gélida
Singra–me
Vara-me
Parte-me
Deixando-me
em ruínas
A
madrugada
Já não me
é contemplação
A
madrugada
Agora
Contempla
meus escombros.
AMBIVALÊNCIA
Wanda
Monteiro
Responde-me!
Por quê?
Não me
arrancas dessa terra híbrida
Densa de
inutilidades
Onde
padeço
Dispersa
Ambivalente.
Nem homem
Nem
mulher
Onde
adoeço
Indefinida
Incógnita
Combalida
por não me saber
Soterrada
de impossibilidades
Responde-me!
Por quê?
Não me
plantas em teu solo
Fértil de
desejo
Denso de
possibilidades
Quem
sabe,
Ainda
possa nascer
O
Resto
De
Mim
NINHO DE
RESPOSTAS
Wanda
Monteiro
Olho para
ti
Tão vago
Tão ávido
Tão ninho
de respostas
Não sei o
que pousar sobre o teu angustiante branco.
O que
queres de mim
?
O que
Desse
mundo
Devo
salvar para te ofertar como resposta?
NAUFRÁGIO
Wanda
Monteiro
Meu
desejo de ti
Submerge
Tudo é
sede e fome
Dentes
trincados
Por fruto
proibido
Tudo é
palavra
Calada
nos lábios
Abafada
Voz abortada
no ventre
Tudo é
grito
Do que
não disseram os gestos
Os
olhares ausentes
Os gestos
extintos
Tudo é
dor
Que
sangra no fio da carne
Ávida do
beijo
Estancado
na boca
Tudo é
som
Desmedido
pulsar
Sonora
matéria que infere e fere
Um
coração que chove água e sal
Tudo é
Abismo
Dor
escavada no peito
Coberta
com migalhas de afeto
Misericordioso
respeito
Tudo é
segredo
Desvelado
Descortinado
Revelado
Tudo é
Naufrágio
Mergulho
cego
Fúria de
marés
Embriaguez
turva de quase amor
Meu
desejo de Ti
É
Naufrágio.

meu caro e raro amigo .. meu poeta ..tenho grande admiração por ti ..por tua poesia ..por tua escritura..por teu verbo.. e por tua humaníssima existência.
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